Somos o que escrevemos?
Escrever com clareza, rigor e correção linguística é, nos dias de hoje, uma autêntica prova de esforço. E no ambiente empresarial, ou institucional, acredito poder ser um fator decisivo na seleção de um candidato a um emprego – um olho mais atento e desperto para as questões da língua pode excluir de imediato um candidato que escreve “ele interviu”, em vez de “interveio”, ou “melhor preparado”, em vez de “mais bem preparado”, na carta formal que acompanha o CV.
Mas, afinal, o que é escrever bem?
Escrever bem é, do meu ponto de vista, uma arte. A arte de combinar de forma sábia os diferentes domínios que atravessam a língua: a ortografia, a sintaxe, o léxico, a pontuação.
A primeira componente a ter em conta é, assim, a ortografia, que não é mais do que a escrita correta das palavras. E escrever corretamente as palavras implica escrever de acordo com a norma ortográfica, o que inclui o bom uso da acentuação gráfica. Acentos a mais – "inclusivé, sózinho, rúbrica" – e acentos a menos – "orgão, benção, periodo" são, assim, incorreções a eliminar.
O segundo domínio linguístico a ter em consideração é a sintaxe, componente que se ocupa da combinação das palavras na frase, das concordâncias e das regências. Deste modo, há que suprimir alguns erros sintáticos recorrentes como "vão haver, foi abusado, discordo com", entre outros.
A terceira componente a considerar é o léxico: a variedade e a riqueza lexical, bem como o uso adequado das palavras no contexto contribuem em grande medida para o sucesso de um texto.
Fazer um bom uso da pontuação é também um fator a não subestimar. A pontuação é o tempero do texto, mas mal usada, pode ser um autêntico dissabor. Quando o leitor tropeça num sem-número de vírgulas, parênteses e travessões, acaba por perder o fio condutor da leitura e, certamente, desistirá de continuar...
Finalmente, o estilo. O estilo é a “maquilhagem” do texto, que se quer bela, mas suave! Os bem conhecidos elo de ligação e há anos atrás são alguns exemplos de redundâncias que se devem evitar. O excesso de estrangeirismos é também uma “praga” a combater. Porquê spa em vez de termas, resort em vez de estância, barbecue em vez de churrasco?
Em suma, escrever bem é saber articular habilmente as várias componentes da gramática: escolher bem as palavras, grafando-as corretamente, combiná-las o melhor possível e, por fim, colocar adornos estilísticos com conta, peso e medida.
Tenho plena convicção de que fazer um bom ou um mau uso da língua transmite uma imagem de nós, que pode ser boa ou menos boa...
Reinventando o clássico cliché “somos aquilo que comemos”, nós somos, sem sombra de dúvida, e cada vez mais, aquilo que escrevemos.



